sábado, 5 de novembro de 2016

A última ceia

Durante toda a tarde daquela quarta-feira dedicou-se aos preparativos do jantar encomendado com alguma antecedência. Cuidou pessoalmente de cada detalhe. Acompanhou a preparação de todos os pratos, das entradas de pão ázimo com especiarias e frutas cristalizadas, ao prato principal - um peixe à romana com molho de alcachofras de Jerusalém. Dedicou especial atenção ao Tatin de tâmaras com flores de lavanda, a sobremesa preferida do Mestre.
Nada de vinho. Recomendou ao sommelier que apenas dispusesse algumas jarras com água ao lado da mesa, como pedira Felipe.
Pouco antes da primeira vigília Maria de Magdala chegou acompanhada de  Felipe e Judas Iscariotes. Como sempre checou tudo com minuciosa atenção. Conhecia o Mestre e sabia o quanto era exigente, principalmente nos detalhes.
- O Mestre irá celebrar essa ocasião apenas com os seus doze apóstolos, portanto nenhum serviçal deverá ficar para servi-los.
Os apóstolos foram pontuais. Sabiam que Ele não tolerava atrasos. Espalhados pelo imenso salão da casa dos pais de João Marcos, emprestada para a ágape, tentavam entender por que quis celebrar a Páscoa dois dias antes.
Acontece que corria à boca pequena uma história atribuída a Lucas, “que sábado, quando pregava numa sinagoga, disseram-lhe que Herodes queria matá-lo”.
A resposta do Mestre teria sido desconcertante: “Digam àquela raposa, que eu estarei expulsando demônios e fazendo curas hoje e amanhã e no terceiro dia terminarei minha missão”.
O burburinho que se seguiu chamou a atenção do Mestre que se acercou do grupo.
- Um profeta não morre longe de Jerusalém.
Jamais passaria pela cabeça dos apóstolos que Ele sabia que seria preso nesta noite ainda.
No dia seguinte, à hora primeira, tomou conhecimento da prisão do Mestre e que Judas Iscariotes, encarregado de pagar as despesas, havia se enforcado.

(Inspirado em Lucas 13:31-32)

 (Miniconto, de Poucas Palavras)

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