sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Canjibrina

Tomou todas. Tinha que voltar pra casa, era o jeito. A parceira, solidária, sacou a receita. O barulho do liquidificador quase explodiu sua cabeça. Engoliu a beberagem tapando o nariz. Enguiou. Vá vomitar lá fora quinda tô pagano o carpete. Deu conta da hora. Trocou de roupa às carreiras. Nem se despediu. Cravo na boca, óculos escuros, pasta debaixo do braço, nem parecia que tinha bebido. Cumprimentava todo mundo com o sorriso de sempre. Inda bem que ninguém percebeu. Até ele achou que tava sóbrio. Dispensou o elevador. Subiu a escada devagarinho. Seis andares. Suar faz bem nessas horas. Quem abriu a porta foi a esposa completamente nua. Lembrou-se da data. Todos os anos, no aniversário de casamento ela o esperava assim. Tirou a roupa imitando um gogoboy. Tá usando calcinha agora? A vista turvou, o sangue gelou, o corpo tremeu, a festa acabou. Só se lembra da mulher nua, aos prantos, toda vomitada num canto do sofá.

(Contarelo, de As Culhudas de Seu Portelo)

Um comentário:

  1. Muito legal, Seu Portelo! Será que vou ler as culhudas antes do Natal?

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