Tomou todas. Tinha que voltar pra casa, era o jeito. A
parceira, solidária, sacou a receita. O barulho do liquidificador quase
explodiu sua cabeça. Engoliu a beberagem tapando o nariz. Enguiou. Vá vomitar
lá fora quinda tô pagano o carpete. Deu conta da hora. Trocou de roupa às
carreiras. Nem se despediu. Cravo na boca, óculos escuros, pasta debaixo do
braço, nem parecia que tinha bebido. Cumprimentava todo mundo com o sorriso de
sempre. Inda bem que ninguém percebeu. Até ele achou que tava sóbrio. Dispensou
o elevador. Subiu a escada devagarinho. Seis andares. Suar faz bem nessas
horas. Quem abriu a porta foi a esposa completamente nua. Lembrou-se da data.
Todos os anos, no aniversário de casamento ela o esperava assim. Tirou a roupa
imitando um gogoboy. Tá usando calcinha agora? A vista turvou, o sangue gelou,
o corpo tremeu, a festa acabou. Só se lembra da mulher nua, aos prantos, toda
vomitada num canto do sofá.
(Contarelo, de As Culhudas de Seu Portelo)
Muito legal, Seu Portelo! Será que vou ler as culhudas antes do Natal?
ResponderExcluir