Tudo indicava que aquele seria um dia muito especial. Do
jeito que o diabo gosta, como gostava de dizer. Observou os ônibus e escolheu
um sem cobrador. Quando o ônibus entrou por uma via pouco movimentada, anunciou
o assalto. Arma em punho foi fazendo a limpa: dinheiro, relógio, celular e tudo
mais que tivesse valor. Aceito boné e tênis, desde que tenha grife. Baixa a
cabeça, porra! Ninguém pode olhar pra minha cara não que dá azar! Estava
descendo quando observou que uma senhora colocou um pequeno embrulho na bolsa.
Qué issaí, tia? É um docinho que vou levando pra minha netinha. Sabe que eu
gosto muito de docinho? Arranca o pacote da mão dela e come gulosamente. Moço
chegou meu ponto posso descer? Ele hesita, mas permite. Ela levanta e com muita
dificuldade se arrasta até a porta, tempo suficiente para que o meliante comece
passar mal. Peraí motor que nestante ele morre. Eu ia levando pra minha filha
que descobriu que o marido tava traindo ela. Ele é louco por esse doce.
(Contarelo, de As Culhudas de Seu Portelo)
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