sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Bem-casado

Tudo indicava que aquele seria um dia muito especial. Do jeito que o diabo gosta, como gostava de dizer. Observou os ônibus e escolheu um sem cobrador. Quando o ônibus entrou por uma via pouco movimentada, anunciou o assalto. Arma em punho foi fazendo a limpa: dinheiro, relógio, celular e tudo mais que tivesse valor. Aceito boné e tênis, desde que tenha grife. Baixa a cabeça, porra! Ninguém pode olhar pra minha cara não que dá azar! Estava descendo quando observou que uma senhora colocou um pequeno embrulho na bolsa. Qué issaí, tia? É um docinho que vou levando pra minha netinha. Sabe que eu gosto muito de docinho? Arranca o pacote da mão dela e come gulosamente. Moço chegou meu ponto posso descer? Ele hesita, mas permite. Ela levanta e com muita dificuldade se arrasta até a porta, tempo suficiente para que o meliante comece passar mal. Peraí motor que nestante ele morre. Eu ia levando pra minha filha que descobriu que o marido tava traindo ela. Ele é louco por esse doce.
(Contarelo, de As Culhudas de Seu Portelo)

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