Era só Bé que bem reparado nem nome direito é.
Sabia-se que era filho de Neném Magarefe, beque central do afamado
Alfaiates Futebol Clube, terror da Baixa do Brejo, subúrbio ferroviário. E só.
Bé não só herdou o apelido como a fama do pai para quem, em babas ou
jogos oficiais, “tanto faz”, do pescoço pra baixo tudo é bola.
- E né pra não sê não? - perguntava com um sorrisinho sorete.
A propósito, contam que ficou famoso de mesmo depois que fez um teste no
Bahia, seu time do coração, levado pela mão apadrinhadora de Everildo Oliveira.
- Não fiquei não foi porque não fui aprovado não, hum...
E bravateava.
- Os cara de sacanagem, vê se num foi não, mandaro eu marcá um tal de
Marcorélio, ponta esquerdo que vei do Framengo. Ai na premera bola ele puco,
passou por debaixo de minhas perna e se picou... Na segunda eu caí de bunda no
chão... Olhei pros home, tudo com cara de desaprovo.
Aí eu disse comigo mesmo vem sacana, vá...
O cara parece até que escutou, pegou a bola, balançou, deu uma risada pra
minha cara, e olhe qui eu fico puto quando nego ri pra minha cara, e ameaçou,
somente ameaçou porque na segunda balançada peguei de rijo, dei um chega pra lá
que o desinfeliz foi cair lá na casa da disgraça…
Para, olha para os interlocutores e pergunta: “Tava certo ou num tava?”.
A foto com a camisa do Bahia no dia do treino até hoje é mostrada
orgulhosamente, mesmo que ninguém duvide da história.
Mora a um tiro de canhão do Bar de Mano o que muito facilita os “peraí
qui eu amostro”.
Eis que num domingo depois do BAVI, como era
de lei, Bé parou no Bar de Mano pra tomar uma e tirar um sarro, mesmo o jogo
ter terminado num zero-a-zero morrinha, mas que o deixou quase sem voz.
- Nem um gol sozinho, porra!
O bar tava lotado. Gritos, cantos, risos, gozações, afinal o Bar de Mano
afamou-se justo por ser um espaço etílico-desportivo tão democrático que o tira-gosto
principal, “pititinga frita no dendê com aipim frito na pimenta”, tem o nome de
BAVI.
Foi saudado como nunca fora nos muitos anos que frequentava o lugar.
Desconfiado, chamou dona
Dedé no cantinho e indagou.
Não tinha visto sua foto no jornal ao lado de Ronaldo Fenômeno, quando
ele visitou a Arena Fonte Nova¹ em cuja
obra trabalhava com orgulho e dedicação “fazeno a nova casa do Esquadrão”.
Pegou o jornal, olhou, reolhou, sorriu, emocionou-se, pediu um cambuí e
desligou num canto do balcão.
De repente Neném Carpinteiro chega junto de Bé e ergue o copo como se
brindasse:
- Você sabe que Ronaldo prometeu um jogo com vocês quando a Arena ficar
pronta?
O silêncio foi na conta de Bé dá um gute no cambuí e avisar pra galera.
- Só não me bote pra marcar aquele porra não, qui eu não vô dá mole!
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¹O Complexo Esportivo Cultural
Octávio Mangabeira, conhecido como Arena Fonte Nova ou Itaipava Arena Fonte
Nova, substituiu o estádio Octávio Mangabeira, carinhosamente chamado de Fonte
Nova, inaugurado em 28 de janeiro de 1951. No dia 4 de março de 1971, foi
reinaugurado depois da construção de um anel superior que elevou sua capacidade
para 80.000 torcedores. Implodido no dia 29 de março de 2010, foi reinaugurado
no dia 5 de abril de 2013, recebendo jogos da Copa das Confederações de 2013 e
da Copa do Mundo de 2014.
(Causo, de Bola Dividida)
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